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Tarsila do Amaral e a matemática: a geometria escondida nos quadros modernistas

22 de agosto de 2026 · Teach Me Math

Poucos nomes representam tão bem o Brasil quanto Tarsila do Amaral. Suas cores tropicais, suas figuras de formas arredondadas e suas paisagens de sonho são reconhecidas no mundo inteiro. Mas há um jeito de olhar para os quadros dela que quase ninguém comenta: o jeito matemático. Por trás daquelas formas há círculos, cones, cilindros, eixos de simetria e proporções exageradas de propósito. Neste artigo, você vai conhecer quem foi Tarsila e depois enxergar a geometria escondida na obra dela.

> Sobre as imagens: as obras de Tarsila do Amaral ainda estão protegidas por direitos autorais (no Brasil, uma obra entra em domínio público 70 anos após a morte da autora — ou seja, só em 2044). Por isso, em vez de reproduzir os quadros, criamos esquemas geométricos originais para a análise e deixamos, no fim, os links para você ver as obras nos museus oficiais.

Quem foi Tarsila do Amaral

Tarsila do Amaral nasceu em 1º de setembro de 1886, em Capivari, interior de São Paulo (hoje o distrito fica no município de Rafard). Era filha de uma família rica de fazendeiros de café, o que lhe deu algo raro para uma mulher da época: acesso a estudo e a viagens. Ainda jovem, estudou em Barcelona; mais tarde, aprendeu desenho e pintura em São Paulo com o professor Pedro Alexandrino.

O momento decisivo veio em Paris. Entre 1920 e 1923, Tarsila estudou na tradicional Académie Julian e teve aulas com três nomes ligados à vanguarda europeia: André Lhote, Fernand Léger e Albert Gleizes. Não é um detalhe qualquer — os três eram artistas que pensavam a pintura em termos de planos, volumes e formas geométricas. Foi ali que Tarsila mergulhou no cubismo, o movimento que propunha "quebrar" o mundo em figuras geométricas.

De volta ao Brasil, ela se juntou a Anita Malfatti, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Menotti Del Picchia no chamado Grupo dos Cinco, o núcleo que deu continuidade ao espírito da Semana de Arte Moderna de 1922. A partir dali, Tarsila construiu uma obra que soube unir duas coisas aparentemente opostas: a técnica moderna que aprendeu na Europa e as cores, os bichos e as paisagens do Brasil.

As fases de Tarsila

A obra de Tarsila costuma ser dividida em fases, e conhecê-las ajuda a entender a geometria de cada quadro:

Tarsila morreu em 17 de janeiro de 1973, em São Paulo. Hoje é considerada uma das maiores artistas modernistas da América Latina — o Abaporu, seu quadro mais célebre, pertence ao acervo do MALBA, em Buenos Aires, e já foi o quadro brasileiro mais caro da história.

Por que a matemática aparece nos quadros dela

Existe uma frase famosa do pintor Paul Cézanne, um dos pais da arte moderna, que resume tudo: a natureza, dizia ele, pode ser tratada pela esfera, pelo cilindro e pelo cone. Ou seja: por trás de qualquer coisa — uma fruta, um corpo, uma montanha — dá para enxergar sólidos geométricos simples. Foi essa maneira de ver que o cubismo levou ao extremo, e foi isso que Tarsila aprendeu com Léger e companhia em Paris.

esfera cilindro cone

Os três sólidos que, segundo Cézanne, estão por trás de tudo na natureza. O cubismo e Tarsila trabalharam exatamente com essa redução das formas.

Uma observação honesta: não sabemos se Tarsila pensava em teoremas enquanto pintava — provavelmente não. Mas as formas que ela escolheu são um prato cheio para quem quer enxergar geometria. E é por isso que professores do Brasil inteiro usam os quadros dela para ensinar matemática. Vamos a alguns exemplos.

Abaporu (1928): o círculo, a curva e a proporção exagerada

O Abaporu é a obra mais reconhecível de Tarsila: uma figura sentada, com uma cabeça minúscula, um corpo curvilíneo e, principalmente, um pé gigantesco em primeiro plano. Ao fundo, um sol redondo e um cacto. O nome vem do tupi e significa, mais ou menos, "o homem que come" — a semente do movimento antropofágico.

Do ponto de vista geométrico, o quadro é uma aula de contraste de proporções. Repare no que a composição faz:

círculo (sol) círculo (cabeça) elipse (corpo) curva (braço) grande elipse (o pé)

Esquema geométrico (análise) da composição — não é a reprodução do quadro. As formas curvas e os círculos ficam evidentes.

Enquanto a cabeça é um círculo pequeno, o pé é uma forma enorme. Se a cabeça tem, digamos, um raio rr, o pé no primeiro plano parece ter várias vezes esse tamanho. Esse exagero não é um erro — é uma escolha. Tarsila usou a desproporção para dizer algo: o homem brasileiro é fincado na terra, "pé no chão", enquanto a cabeça (a razão, o pensamento importado da Europa) aparece encolhida. A matemática por trás disso é a ideia de escala: mudar o tamanho relativo das partes muda completamente a sensação da imagem.

E note como quase tudo ali é feito de curvas e círculos: o sol, a cabeça, o joelho, o pé. Onde o cubismo europeu era anguloso e cinzento, Tarsila arredondou as formas e encheu tudo de cor. Foi a "antropofagia" em ação — ela devorou a técnica e cuspiu algo tropical.

A Negra (1923): faixas, horizontais e um grande semicírculo

Pintado ainda na fase parisiense, A Negra mostra uma figura feminina sentada, monumental, com formas muito simplificadas. Ao fundo, faixas verticais e horizontais organizam o espaço quase como um plano cartesiano — retas paralelas que se cruzam formando ângulos retos. O corpo, em contraste, é construído por curvas amplas e por uma forma que lembra um grande semicírculo.

Esse jogo entre o retilíneo do fundo e o curvilíneo da figura é geometria pura: paralelismo, perpendicularidade e simetria de um lado; circunferências e arcos do outro. É um ótimo quadro para conversar com os alunos sobre a diferença entre retas e curvas, e sobre o que são retas paralelas (as que nunca se cruzam) e perpendiculares (as que se cruzam formando 90°).

Estrada de Ferro Central do Brasil (1924): retas, perspectiva e ponto de fuga

Da fase Pau-Brasil, Estrada de Ferro Central do Brasil mostra uma paisagem urbana repleta de trilhos, postes, torres, sinais e placas. Se A Negra brinca com curvas, aqui o assunto são as retas — verticais, horizontais e, sobretudo, diagonais que convergem. Quando os trilhos de um trem se afastam de quem olha, eles parecem se aproximar até quase se tocar num ponto distante: é o que chamamos de ponto de fuga, o coração da perspectiva. Tarsila organiza a cidade como uma verdadeira malha geométrica, um quadriculado de linhas que estrutura toda a tela. É a chance perfeita de mostrar que a perspectiva — aquilo que dá profundidade a um desenho — é pura geometria: linhas paralelas no mundo real que, no papel, convergem para um mesmo ponto. Um exercício simples com os alunos: desenhar uma estrada ou um trilho que "some" no horizonte e marcar onde fica esse ponto de fuga.

Calmaria II (1929): sólidos geométricos de verdade

Se o Abaporu é o reino das curvas, Calmaria II é o reino dos sólidos. A paisagem, quase abstrata, é montada com formas que qualquer estudante reconhece de um capítulo de geometria espacial: pirâmides e um paralelepípedo, refletidos na água.

pirâmide (base quadrada) V = 5 · A = 8 · F = 5 pirâmide (base triangular) V = 4 · A = 6 · F = 4 paralelepípedo V = 8 · A = 12 · F = 6

Os sólidos que aparecem em Calmaria II, com o número de vértices (V), arestas (A) e faces (F) de cada um.

Esse quadro é perfeito para explorar os poliedros e um resultado lindo da matemática, a relação de Euler: em todo poliedro convexo, vale

VA+F=2V - A + F = 2

Confira com os sólidos do esquema. Na pirâmide de base quadrada: 58+5=25 - 8 + 5 = 2. Na pirâmide de base triangular (o tetraedro): 46+4=24 - 6 + 4 = 2. No paralelepípedo: 812+6=28 - 12 + 6 = 2. Sempre dá 2! É a mesma matemática que descreve uma bola de futebol e as construções de arquitetura — e ela está discretamente ali, na paisagem serena de Tarsila.

Antropofagia (1929): simetria e reaproveitamento

Em Antropofagia, Tarsila fez algo curioso: juntou figuras que já tinha pintado antes — o corpo de A Negra e a figura do Abaporu — numa mesma cena, com sol, banana e cacto. É quase uma operação de "colagem" de formas, e o resultado tem uma organização bastante equilibrada, com elementos que se respondem dos dois lados da tela.

eixo de simetria

Muitas composições de Tarsila se organizam em torno de um eixo, com formas que se equilibram — a ideia de simetria.

A simetria é um dos conceitos mais visuais da matemática: uma figura é simétrica em relação a um eixo quando, ao "dobrar" a imagem sobre essa linha, os dois lados coincidem. Nem todo quadro de Tarsila é perfeitamente simétrico (o Abaporu, por exemplo, é propositalmente desequilibrado), mas o equilíbrio entre as formas é uma preocupação constante — e equilíbrio, no fundo, é uma conversa sobre pesos, medidas e proporção.

Como usar isso com os alunos

A obra de Tarsila é um convite para tirar a matemática do caderno e levá-la para o mundo. Algumas ideias simples:

Arte e matemática não são mundos separados. As duas nascem da mesma vontade humana de enxergar padrões, organizar o espaço e dar forma às ideias. Tarsila do Amaral fez isso com tinta e pincel; você pode fazer com régua, compasso e um pouco de curiosidade.

Perguntas frequentes

Quem foi Tarsila do Amaral? Uma das maiores pintoras brasileiras (1886–1973), figura central do modernismo. Estudou em Paris com mestres cubistas e criou obras como Abaporu, A Negra e Antropofagia, unindo técnica moderna e temas brasileiros.

Quais formas geométricas aparecem nos quadros de Tarsila? Muitos círculos e curvas (o sol, cabeças, corpos), além de cones, cilindros, pirâmides e paralelepípedos — sobretudo em Calmaria II. Também retas paralelas, perpendiculares e perspectiva na Estrada de Ferro Central do Brasil.

Qual é a obra mais famosa de Tarsila do Amaral? O Abaporu (1928), que inspirou o Movimento Antropofágico e hoje é o quadro brasileiro mais valioso, no acervo do MALBA, em Buenos Aires.

Onde ver as obras originais

Como as pinturas têm direitos autorais, vale visitá-las nas fontes oficiais:


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